Autostrada del Sole: a estrada que uniu o norte e o sul da Itália
- Sergio de Aquino

- 26 de jan.
- 4 min de leitura
Gosta de viajar? De dirigir um carro e descobrir, aos poucos, o que existe entre uma cidade e outra, entendendo a paisagem, a história e as pessoas que vivem ali? Então vale a pena conhecer a Autostrada del Sole.

Mesmo que eu prefira as estradas menores, aquelas que passam por vilarejos, colinas e áreas rurais, a Autostrada del Sole faz parte da história da Itália. Ela não é apenas uma via rápida. É um marco que mudou a forma como o país passou a se deslocar, viajar e se reconhecer como território integrado.
Inaugurada oficialmente em 1960, a Autostrada del Sole nasceu para ligar o norte ao sul da Itália de forma contínua. O nome, “Estrada do Sol”, traduz bem o espírito da época: um país que deixava para trás os anos difíceis do pós-guerra e avançava em direção ao crescimento econômico, à mobilidade e à modernização.
O percurso liga Milano a Napoli, passando por cidades fundamentais como Bologna, Firenze e Roma. São cerca de 759 quilômetros que cruzam o coração da Itália e atravessam regiões muito diferentes entre si, tanto em paisagem quanto em identidade cultural.
Os trechos mais belos da Autostrada del Sole
Embora não tenha sido projetada como estrada cênica, alguns trechos da Autostrada del Sole se destacam pela paisagem e pelo impacto visual.
O mais reconhecido é o trecho entre Bologna e Firenze, onde a estrada atravessa os Apeninos. Viadutos elevados, túneis longos e curvas que acompanham o relevo revelam o enorme desafio de engenharia enfrentado durante sua construção. É o trecho que melhor expressa a grandiosidade do projeto e sua relação direta com a geografia italiana.
Entre Firenze e Roma, a estrada corta áreas da Toscana e do norte do Lazio, com paisagens mais abertas, colinas suaves e campos agrícolas. Não é um trecho de grandes estruturas, mas oferece uma leitura clara do território e da transição entre regiões.
Já entre Roma e Napoli, a paisagem assume um caráter mais mediterrâneo. O valor desse trecho está menos no impacto visual e mais no significado histórico: a consolidação definitiva da ligação entre o centro e o sul do país, algo que por décadas foi um desafio logístico e social.
O Cinquecento e a estrada que uniu a Itália

Uma das imagens mais simbólicas associadas à Autostrada del Sole mostra um Fiat 500 parado em um pedágio, com a inscrição “Staffetta del Sole – Milano–Napoli–Milano”.
Trata-se, muito provavelmente, de um Fiat 500 D, modelo típico do início dos anos 1960, facilmente reconhecido pelas portas com abertura invertida. Esse carro fazia parte de uma ação simbólica chamada “staffetta”, ou revezamento, cujo objetivo não era velocidade ou competição, mas demonstração.
Interessante ver a presença do FIAT 500 clássico em diversas fotos da Autostrada del Sole
A ideia era simples e poderosa: provar que a nova estrada funcionava, era contínua e podia ser percorrida até mesmo pelo carro mais popular da Itália. O Cinquecento, pequeno e acessível, representava o cidadão comum diante de uma obra monumental. Aquela imagem resume bem o espírito da época: a Itália finalmente conectada sobre rodas.

Parla Nonno Cinquino!
Eu me lembro bem da primeira vez que encostei meus pneus na Autostrada del Sole. Não era só asfalto, era novidade. A gente não entrava ali pensando em correr, mas em ir mais longe do que antes. O vento entrava pelas frestas e cada quilômetro parecia uma conquista. Para quem vinha de estradas estreitas, cheias de curvas e poeira, aquilo parecia coisa de outro mundo. A estrada era grande, reta, contínua, e pela primeira vez dava a sensação de que a Itália cabia inteira dentro de um mesmo caminho. Eu não era feito para pressa, nunca fui. Mas rodar ali me fez entender que o país estava mudando, e que até um Cinquecento pequeno como eu podia fazer parte dessa nova história sobre rodas.
Uma estrada que mudou, mas manteve sua essência
Desde sua inauguração, a Autostrada del Sole passou por inúmeras melhorias. Mais faixas, novos túneis, viadutos modernos e sistemas de segurança atualizados. Ainda assim, o traçado original e sua função como eixo principal do país permanecem.
Hoje, ela é vista principalmente como uma via rápida. Mas sua importância vai além do deslocamento. Ela influenciou o turismo rodoviário, redefiniu hábitos de viagem e ajudou a consolidar o automóvel como parte da vida cotidiana italiana.
Um convite consciente
Incluir a Autostrada del Sole em um roteiro pela Itália não significa atravessá-la com pressa. Significa compreendê-la, reconhecer sua importância histórica e, quando fizer sentido, usá-la como eixo para sair dela e descobrir as estradas menores que revelam o país em sua forma mais autêntica.
Em breve, o GIRO500 vai percorrer a Autostrada del Sole e mostrar, em vídeo no YouTube, como essa estrada se apresenta hoje, mais de seis décadas após sua inauguração. Não como um convite à velocidade, mas como um registro consciente de uma via que marcou a história da Itália e ajudou a moldar a forma como viajamos sobre rodas.
Crédito das imagens: As imagens históricas utilizadas nesta matéria foram consultadas no artigo “L’Autostrada del Sole ha 65 anni: breve storia di un’infrastruttura d’eccezione”, publicado pela Domus. Fonte: Domus – https://www.domusweb.it/it/architettura/gallery/2021/07/16/lautostrada-del-sole-ha-65-anni-breve-storia-di-uninfrastruttura-deccezione.html















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