Fiat 500D: O 1º Cinquecento e seu Design Icônico
- Sergio de Aquino

- 4 de jan.
- 5 min de leitura
Portas suicidas, simplicidade mecânica e a essência do 500D original
Quando se fala no Cinquecento clássico, é comum imaginar um pequeno carro simpático, de linhas arredondadas, cruzando ruas estreitas da Itália. Mas foi com o Fiat 500D que essa imagem começou a ganhar forma definitiva. Produzido entre 1960 e 1965, o 500 D representa o momento em que o Cinquecento deixou de ser apenas uma solução urbana básica e passou a se consolidar como carro de uso diário, familiar e até interurbano.

Para o GIRO500, o Fiat 500D ocupa um lugar especial. Ele marca a transição entre o conceito inicial do Nuova 500 e o carro que, de fato, entrou na vida real dos italianos, acompanhando trabalho, pequenas viagens e mudanças no modo de viver do país nas décadas de 1950 e 1960.
O contexto do Fiat 500D na Itália dos anos 60
No início da década de 1960, a Itália vivia um período de crescimento econômico mais consistente. As cidades continuavam se expandindo, as estradas melhoravam e as famílias começavam a se deslocar com mais frequência entre centros urbanos e regiões vizinhas.
Nesse cenário, a FIAT precisava evoluir o Cinquecento sem perder sua essência: baixo custo, simplicidade e facilidade de uso. O resultado foi o Fiat 500 D, um modelo que manteve o espírito do original, mas trouxe melhorias importantes em desempenho e confiabilidade.
Um pequeno salto mecânico que fez grande diferença
Tecnicamente, o Fiat 500D recebeu uma atualização fundamental. O motor bicilíndrico, traseiro e refrigerado a ar passou de 479 cm³ para 499,5 cm³, entregando cerca de 17,5 cavalos de potência. Pode parecer pouco hoje, mas na época isso significou uma mudança real na forma de usar o carro.
Com essa evolução, o Fiat 500D passou a atingir aproximadamente 95 km/h, tornando-se mais adequado para estradas interurbanas e deslocamentos fora dos grandes centros. O Cinquecento deixava de ser visto apenas como alternativa à scooter ou à Vespa e começava a assumir o papel de automóvel completo, dentro das limitações naturais do projeto.
Além disso, o conjunto mecânico continuava extremamente simples:
Tração traseira
Peso em torno de 500 kg
Manutenção fácil e barata
Baixo consumo de combustível
Essa combinação ajudou a consolidar o 500 D como um carro confiável para o cotidiano.
Portas suicidas: solução prática, não polêmica
Um dos elementos mais marcantes do Fiat 500 D são as chamadas portas suicidas, com abertura invertida. Hoje, o nome causa estranhamento, mas nos anos 50 e 60 esse tipo de porta era relativamente comum, especialmente em carros compactos.
No contexto da época, elas ofereciam vantagens claras:
Facilitavam o acesso ao interior do carro
Funcionavam bem em ruas estreitas
Simplificavam a estrutura da carroceria
A preocupação com segurança passiva ainda não tinha o peso que ganhou décadas depois. O trânsito era mais lento, os carros eram menores e a relação com o automóvel era diferente. No Fiat 500 D, as portas suicidas não eram um risco, mas sim uma solução prática e coerente com seu tempo.

Histórias do Nonno Cinquino
“Hoje chamam de porta suicida e fazem cara feia. Mas naquele tempo, metade dos carros tinha porta assim. Não era coisa estranha, era normal. O importante não era a porta… era para onde ela levava.
Dizem que era perigosa porque, se abrisse com o carro andando, o vento puxava a porta para fora. É verdade. Mas quem é que andava rápido? A gente ia com calma, olhando a estrada, conversando. A pressa ainda não tinha chegado.
Também falam de batida, que a porta protegia menos. Pode ser. Mas carro nenhum protegia muito naquela época. O Cinquecento não foi feito para correr, foi feito para ir.
E foi com ele que a gente começou a ir mais longe. Visitar um amigo em outra comuna, almoçar na casa de um parente, conhecer um vilarejo novo só porque alguém disse que lá tinha um vinho bom ou uma praça bonita. Antes era tudo muito perto. Com o 500 D, o mundo ficou um pouco maior.
Aquela porta ajudava a entrar no carro pequeno, ajudava a sair com sacola, com criança no colo. E ajudava a sair de casa também. Não para fugir, mas para encontrar gente. Hoje dizem que a porta era o problema. Eu digo que ela abriu muitos caminhos.”
Design honesto e identidade definitiva
Visualmente, o 500 D consolidou o design que hoje associamos ao Cinquecento clássico. As linhas suaves, os faróis redondos e as proporções compactas transmitiam uma sensação de simpatia e funcionalidade ao mesmo tempo.
Nada ali era exagerado. O design italiano se expressava na capacidade de transformar limites técnicos em identidade visual. Cada curva tinha um motivo, cada detalhe existia para cumprir uma função. Esse equilíbrio entre forma e função é um dos motivos pelos quais o Fiat 500 D envelheceu tão bem e se tornou referência de design automotivo.

Um carro pensado para ser usado, não admirado à distância
Outro aspecto fundamental do Fiat 500 D era sua facilidade de manutenção. Nos anos 60, era comum que pequenos ajustes fossem feitos em oficinas de bairro ou até em casa. O carro era simples de entender, simples de consertar e barato de manter.
Isso criou uma relação muito próxima entre o dono e o automóvel. O Cinquecento não era um objeto distante ou sofisticado. Ele fazia parte da rotina, do trabalho, da família e das pequenas conquistas do dia a dia.
O 500 D e a mudança no modo de viajar
Com o 500 D, muitas famílias italianas passaram a fazer algo novo: viajar de carro, ainda que em distâncias curtas. Ir a outra cidade, visitar parentes, conhecer uma praia ou um vilarejo próximo passou a ser mais comum.
Essa mudança de comportamento é essencial para entender o impacto do modelo. O Fiat 500 D não apenas acompanhou o crescimento econômico do país, mas ajudou a moldar um novo jeito de se deslocar, mais livre e independente.
Para o GIRO500, esse ponto dialoga diretamente com a ideia de estrada, ritmo e descoberta. O Cinquecento não foi criado para correr, mas para ir. E, muitas vezes, ir devagar era exatamente o que permitia enxergar mais.
O legado do Fiat 500 D
O Fiat 500 D abriu caminho para as versões que viriam depois, como o 500 F, o 500 L e o 500 R. Ele mostrou que o conceito do Cinquecento funcionava, que podia evoluir e acompanhar as transformações da sociedade italiana.
Mais do que um modelo específico, o 500 D representa o momento em que o Cinquecento se tornou um carro de verdade para a vida real, sem perder sua simplicidade original.
No próximo post da categoria Cinquecento, seguimos essa linha evolutiva e entramos nas mudanças que levaram ao Fiat 500 F, quando o modelo passou por ajustes importantes de segurança e design, refletindo uma nova fase da Itália e do automóvel.








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