ZTL e LEZ na Itália: entender as regras também faz parte da viagem
- Sergio de Aquino

- 20 de jan.
- 5 min de leitura
Viajar de carro pela Itália é uma experiência que vai muito além de chegar a um destino. É sobre observar o caminho, entrar em cidades pequenas, atravessar centros históricos e perceber que cada lugar tem seu próprio ritmo. Mas junto com essa liberdade vem um conjunto de regras que, se não forem compreendidas, podem transformar uma viagem prazerosa em uma sequência de multas inesperadas. É aí que entram dois conceitos que costumam gerar muita confusão, especialmente entre turistas: ZTL e LEZ.

Apesar de muitas vezes aparecerem juntas em placas, aplicativos e notícias, ZTL e LEZ não significam a mesma coisa, não funcionam da mesma forma e não têm o mesmo objetivo. Entender essa diferença muda completamente a forma como se dirige pela Itália.
A ZTL, sigla para Zona a Traffico Limitato, é uma área de tráfego limitado criada para proteger os centros históricos, melhorar a qualidade de vida dos moradores, reduzir congestionamentos e preservar áreas urbanas sensíveis, muitas delas com ruas estreitas e construções seculares. O objetivo principal da ZTL não é ambiental, mas urbano e cultural: controlar o acesso de veículos a regiões que não foram projetadas para o trânsito moderno.
Por esse motivo, a ZTL não está ligada ao nível de emissões do carro, mas sim ao direito de acesso. Em geral, essas zonas são controladas por câmeras que leem automaticamente a placa do veículo, e a multa é aplicada sem abordagem física caso a entrada seja irregular.
O acesso à ZTL costuma ser permitido apenas a moradores cadastrados, veículos de serviço, táxis, transporte público e, em alguns casos, a hóspedes de hotéis localizados dentro da área, desde que o hotel registre previamente a placa do carro. Fora essas exceções, não importa se o veículo é novo, elétrico ou híbrido. Sem autorização, não entra.
Outro ponto importante é que a ZTL não funciona o tempo todo. Os horários variam de cidade para cidade e podem mudar conforme o período do ano. Em muitas cidades italianas, especialmente as mais turísticas, as restrições da ZTL são ampliadas no verão, com mais dias da semana e mais horas de ativação, enquanto no inverno essas restrições costumam ser reduzidas, funcionando em períodos mais limitados. Eventos, feriados e finais de semana também podem alterar essas regras, o que exige atenção redobrada.
Um erro muito comum é acreditar que um carro moderno ou com classificação ambiental elevada pode circular livremente nessas áreas. Isso não é verdade. A ZTL é uma questão de permissão, não de emissão.
Já a LEZ, sigla para Low Emission Zone, tem um objetivo diferente. Ela foi criada para reduzir a poluição do ar e melhorar a qualidade ambiental, atuando diretamente sobre o tipo de veículo que circula. Nesse caso, o fator determinante é o padrão de emissões do veículo, conhecido como classificação EURO.

A LEZ pode abranger uma cidade inteira, regiões metropolitanas ou áreas específicas, e suas regras variam bastante conforme a cidade e a estação do ano. Em muitas regiões do norte da Itália, por exemplo, as restrições são mais severas durante o inverno, quando os níveis de poluição tendem a aumentar. Diferente da ZTL, aqui um carro pode ou não circular dependendo do seu padrão EURO, do tipo de combustível e do período do ano.
Para deixar essa diferença mais clara, vale resumir de forma objetiva:
Critério | ZTL | LEZ |
Objetivo | Proteção urbana e controle de tráfego | Redução de emissões |
Base da restrição | Permissão de acesso | Classificação EURO |
Ligação com centro histórico | Frequente | Pode ou não existir |
Carro novo garante acesso | Não | Depende |
Fiscalização por câmeras | Sim | Sim |
Quando falamos de LEZ, entra em cena a classificação ambiental dos veículos. Abaixo está um resumo das normas EURO, utilizadas como base para muitas restrições ambientais na Itália.
EURO | Ano aproximado | Gasolina | Diesel | GPL / Metano |
EURO 0 | até 1992 | Altamente restrito | Altamente restrito | Restrito |
EURO 1 | 1993–1996 | Restrito | Restrito | Restrito |
EURO 2 | 1997–2000 | Restrito | Restrito | Parcial |
EURO 3 | 2001–2005 | Moderado | Muito restrito | Melhor aceitação |
EURO 4 | 2006–2010 | Geralmente aceito | Restrições sazonais | Aceito |
EURO 5 | 2011–2014 | Aceito | Restrições frequentes | Aceito |
EURO 6 | 2015–atual | Aceito | Aceito, com exceções locais | Aceito |
Mesmo dentro da mesma região, as regras podem mudar de uma cidade para outra. Em muitas delas, o diesel é o combustível mais penalizado, e restrições temporárias podem ser ativadas em dias de alerta ambiental. Não existe uma regra única válida para toda a Itália.
Para quem viaja de carro alugado, há um detalhe importante. A maioria dos veículos de locadora é classificada como EURO 6, o que ajuda no caso da LEZ, mas não autoriza automaticamente o acesso à ZTL. As multas costumam chegar semanas ou até meses depois, cobradas pela locadora, já com taxas administrativas incluídas.
No fim das contas, dirigir pela Itália também é uma questão de convivência. Sempre que visitamos a casa de alguém, respeitar as regras e os hábitos faz parte do bom senso. Com o trânsito italiano não é diferente. Um pouco de informação antecipada pode tornar a viagem muito mais tranquila, mais segura e até mais econômica. Afinal, quem gosta de pagar multas?
Falando em multas, no caso das multas por ZTL ou LEZ, é importante saber que o sistema italiano é quase totalmente automatizado. As infrações são registradas por câmeras que leem a placa do veículo, cruzam os dados com os sistemas municipais e geram a multa sem qualquer abordagem no local. Quando o carro é alugado, a notificação inicial chega à locadora, que identifica o condutor responsável e repassa seus dados às autoridades. A partir daí, a multa é reenviada ao motorista, normalmente semanas ou meses depois da viagem, já acompanhada de uma taxa administrativa da locadora, cobrada automaticamente no cartão de crédito. O pagamento pode ser feito online, por transferência ou boleto internacional, dependendo do município. Ignorar a multa não é uma boa ideia.
Além de juros e acréscimos, o débito pode ser repassado a empresas de cobrança internacional, dificultar futuras locações de veículos na Itália ou na União Europeia e, em alguns casos, gerar problemas em viagens futuras ao país. Em muitos municípios há desconto para pagamento rápido, o que torna a quitação imediata a opção mais simples, econômica e tranquila. Informação prévia, nesse caso, sai sempre mais barata do que resolver o problema depois.
A Itália é única, e seu trânsito reflete essa singularidade. O GPS ajuda, mas não resolve tudo. A internet informa, mas nem sempre traz o contexto local. Sempre que possível, perguntar no hotel, conversar com um amigo que já fez o mesmo roteiro ou ouvir quem vive ali pode render dicas valiosas. Dirigir bem também é saber observar, respeitar e entender o lugar por onde se passa.
No GIRO500, entender o caminho faz parte da experiência de viajar.









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