O Futuro da Abarth Está em Jogo: Stellantis Pode Reduzir o Escorpião a um Acessório Fiat
- Sergio de Aquino

- 9 de jan.
- 3 min de leitura
Nos últimos meses, o mundo automotivo voltou a olhar para a Abarth com uma inquietação que parecia coisa do passado. Fontes do setor indicam que a Stellantis, conglomerado que reúne 14 marcas sob o mesmo teto, estaria estudando transformar a Abarth em simples “allestimento” esportivo dentro da linha Fiat. Traduzindo o jargão: o Escorpião, que carrega décadas de história, poderia deixar de ser marca independente para se tornar apenas uma versão esportiva de carros da Fiat.

A notícia caiu como gasolina na fogueira nos círculos de apaixonados. Não se trata apenas de um movimento corporativo qualquer. Estamos falando de identidade, legado e um pedaço importante do DNA automotivo italiano.
Abarth, um símbolo maior que a soma das peças
Fundada em 1949 por Carlo Abarth, a marca construiu sua reputação não no marketing, mas na pista. Pequenos carros com temperamento explosivo, engenharia criativa, ruído metálico e uma filosofia que não cabe em planilha.
O “piccolo mostro” virou filosofia de vida. Das pistas às estradas, dos 595 e 695 às preparações selvagens, Abarth sempre funcionou como um lembrete de que potência não precisa vir em tamanho XXL.
Quando o 500 renasceu no início dos anos 2000, o Scorpion encontrou de novo seu habitat natural: cidade, curvas, barulho e um toque de arrogância mecânica que a gente reconhece de longe.
A era Stellantis e o dilema das 14 marcas
O contexto agora é outro. A Stellantis, formada pela fusão entre FCA e PSA, abriga gigantes como Jeep, Peugeot, Citroën, Maserati, Alfa Romeo e, claro, Fiat.
Só que manter tantas marcas vivas, coerentes e lucrativas não é tarefa romântica. É organização industrial. E, como toda fusão desse porte, a tesoura estratégica inevitavelmente aparece. Rumores vindos do setor indicam:
• marcas serão reposicionadas, • linhas serão consolidadas, • sobreposições serão cortadas.
Nesse cenário, perguntar o que fazer com a Abarth não é absurdo. A questão é como fazer.
O Escorpião vira etiqueta? O risco da descaracterização
Se a conversão se confirmar, talvez tenhamos algo como:
“Fiat 600 – versão Abarth”ou“Fiat 500 – pacote Abarth Sport”
Tecnicamente faz sentido. Comercialmente pode até funcionar. Mas culturalmente há uma perda difícil de mensurar.
Transformar Abarth em mera subcategoria esportiva é subaproveitar um gigante do automobilismo e rebaixar a paixão das pessoas por motores e velocidades.
Em um mundo que tenta esterilizar o automobilismo, isso não é detalhe, é perda cultural.
GIROPENSAMENTO - o mundo punindo a paixão
O que preocupa não é apenas a burocracia. É o sentido histórico da coisa.
Vivemos um momento peculiar. Enquanto engenharia, legislação e mercado seguem moldando o futuro do automóvel, parece haver um desconforto crescente com qualquer forma de paixão automobilística mais visceral. Ruído virou incômodo. Gasolina virou pecado. Acelerar virou mau comportamento urbano. E marcas com DNA esportivo estão sendo empurradas para o canto da sala para “não atrapalhar o discurso”.
Se uma marca como Abarth, cuja essência nasceu da competição, da ousadia e da cultura racing italiana, se torna apenas um pacote, perdemos algo que não aparece no balanço trimestral: perdemos história, perdemos autenticidade e perdemos diversidade cultural no mundo automotivo.
E isso não é sobre nostalgia. É sobre ecossistema.
Se todas as marcas forem domesticadas, higienizadas e alinhadas a um mesmo roadmap industrial global, o entusiasmo vira commodity e o entusiasmo sempre foi o combustível mais nobre do automóvel.
E agora?
Ainda não há oficialmente um desfecho. Nenhuma decisão pública da Stellantis selou o destino da Abarth. Mas o debate existe e é sintomático de um tempo em que marcas com forte personalidade precisam justificar sua existência perante planilhas globais.
Seja qual for o final dessa história, uma coisa é certa: a cultura automotiva italiana nunca foi construída pela média, e sim pelos excessos, pelos exageros, pelo design impactante, pelos gritos mecânicos e pelo orgulho de acelerar por espírito, não por KPI.
Se deixarmos esse espírito escapar, o mundo perde um sabor.
A Itália perde um tempero.
E o Escorpião… perde o ferrão.








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